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Bebê Diabo atrapalha show do Calypso



Categoria: Cotidiano
Escrito por Lello Lopes às 23h12
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O Oscar e a geladeira diabólica

Eu já fui um cinemaníaco, destes que vão duas vezes por mês ao cinema. Mas nos últimos tempos, tenho sido um pouco relapso. De todos os filmes que concorreram ao Oscar no domingo, em todas as categorias, eu só vi um: Senhores do Crime, que disputou a estatueta de Melhor Ator com Viggo ‘Aragorn’ Mortensen. Nem Ratatouille, nem Piratas do Caribe, nem o Ultimato Bourne. Nem mesmo o horrível Norbit. Lamentável.

 

Ultimamente tenho me dedicado à TV e suas séries. Mas de vez em quando eu dou uma vasculhada na minha (ainda não tão farta) videoteca. Perdidos entre boxes de De Volta para o Fututro, Senhor dos Anéis, Indiana Jones, entre outros, estão alguns filmes pouco conceituados, como A Coisa e Colheita Maldita. Mas nada se compara à pérola A Geladeira Diabólica.

 

Compre esse VHS há muito tempo atrás, por cinco reais. E por um único motivo: a chamada na capa. “Um ser inanimado que ama, seduz e ... mata!”. A descrição do filme, na parte de trás, também é ótima, com todos estes erros de português. “Um jovem casa, Steve (David Simonds) e Eileen (Julia McNeal), estão prestes a realizar seu grande sonho – mudar para New York. Steve agora tem novo emprego e Eileen quer ser atriz. Eles estão felizes com a nova vida e ainda por cima, por terem conseguido um ótimo aluguel por um apartamento no Brooklin, que já vem com a geladeira! Era mais do que podiam esperar. Mas logo algo estranho está acontecendo com eles. Steve está diferente, Eileen assustada, coisas muito esquisitas acontecem no apartamento. Steve não acredita em Eileen, em suas suspeitas. Eileen faz amizade com Juan (Angel Caban), o encanador do prédio e também com uma misteriosa cigana – eles conhecem o mistério. Assim, aos três só resta unir forças e enfrentar este diabólico ser ... a geladeira!”

 

Achou ruim? Pior é a descrição do filme no VHS em inglês, que segundo a crítica do New York Post é uma mistura quase perfeita e extremamente tensa de Poltergeist, Horror em Amityville e O Bebê de Rosemary . Dá pra acreditar?

 

Bom, eu vi o filme apenas uma vez. E é de chorar. Chorar de rir. Aposto que Os Estúpidos Contra o Rei Medas terá um roteiro melhor, sem falar de efeitos especiais mais apurados. Mas topo encarar de novo uma sessão com os amigos. É só marcar. Quem encara?

 



Categoria: Entretenimento
Escrito por Lello Lopes às 00h08
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Todo o Meu Ouro

 

 

De longe eu penso em você

E com meus olhos fechados

Te vejo ao lado respirando

Sinto um calor se propagando

 

Noto você na minha frente

Se materializar na minha frente

 

E volto a ver o teu tamanho

Saber o teu lugar

 

E desejo o desejo

Do perigo de um novo jeito

 

Um mar de lava incandescente

Faz de repente ver

Que eu quero esse mistério sempre

Não quero te perder

 

E desejo o perigo

Do desejo de um novo jeito

 

Arrisco todo o meu ouro

Dou meu amor como garantia

Para encontrar um tesouro

E não bijuteria

 

Às vezes uma música só faz sentido depois de muitas e muitas vezes ouvidas. E deixam o dia mais completo, mais vivo. Como hoje.



Categoria: Cotidiano
Escrito por Lello Lopes às 22h51
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Perdidos na Europa

 

No final de 2004, três amigos decidiram gastar as suas parcas economias pra passarem alguns dias na Europa. Tudo começou em uma brincadeira, que virou aposta, que virou caso sério e que virou uma viagem inesquecível. Agora, quase quatro anos depois, chegou a hora de dividir os momentos com quem quiser ver (ou rever). Então, para ver as fotos de Perdidos na Europa, ao lado dos meus queridos e imprescindíveis amigos Lu e André, clique na fotona ou aqui.



Escrito por Lello Lopes às 23h26
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O Mundo Anda Tão Complicado


Gosto de ver você dormir
Que nem criança com a boca aberta
O telefone chega sexta-feira
Aperto o passo por causa da garoa
Me empresta um par de meias
A gente chega na sessão das dez
Hoje eu acordo ao meio-dia
Amanhã é a sua vez

Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você.

Temos que consertar o despertador
E separar todas as ferramentas
Que a mudança grande chegou
Com o fogão e a geladeira e a televisão
Não precisamos dormir no chão
Até que é bom, mas a cama chegou na terça
E na quinta chegou o som

Sempre faço mil coisas ao mesmo tempo
E até que é fácil acostumar-se com meu jeito
Agora que temos nossa casa
é a chave que sempre esqueço

Vamos chamar nossos amigos
A gente faz uma feijoada
Esquece um pouco do trabalho
E fica de bate-papo
Temos a semana inteira pela frente
Você me conta como foi seu dia
E a gente diz um p'ro outro:
- Estou com sono, vamos dormir!

Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você

Quero ouvir uma canção de amor
Que fale da minha situação
De quem deixou a segurança de seu mundo
Por amor



Categoria: Cotidiano
Escrito por Lello Lopes às 23h23
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Ora, pois!

Pois é. Já sou oficialmente um cidadão português. Vamos comemorar, ó pá!



Categoria: Cotidiano
Escrito por Lello Lopes às 21h51
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Recanto Dourado

A areia quente escalda o corpo inerte
A brisa do mar embala o rosto imberbe
E a água verde do Atlântico vem lamber os seus pés
À noite, a Lua espia do Céu
E meneia a cabeça em sinal de reverências
As estrelas cantam uma melodia simples
E os planetas giram apenas para se exibirem
Cortejo maior faz o Sol
Imponente, desperta do meio do oceano toda a manhã
E afugenta a Lua, as estrelas, os planetas
Apenas para iluminar o seu recanto dourado

(Publicado originalmente em 07/05/04)



Categoria: Contos
Escrito por Lello Lopes às 13h06
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Listas - Os 5 melhores filmes com o Hugh Grant

Ontem foi o Valentine’s Day. Então, para os corações apaixonados, aqui vai uma lista com os melhores momentos de um dos atores de comédia-romântica mais subvalorizado de todos os tempos: Hugh Grant. Pode ver, as melhores comédias-rômanticas têm a participação do inglês. Mesmo assim, ninguém dá valor para o cara. E acima de tudo ele tem uma qualidade fundamental e pouco vista: sabe rir de si mesmo. Um exemplo acontece nos comentários de Simplesmente Amor. Na cena que Hugh Grant e a mocinha são descobertos se beijando na escola, o diretor do filme diz que no dia que Hugh Grant morrer vão usar aquela cena na televisão para ilustrar a matéria. Hugh Grant logo rebate, dizendo que se não usarem essa cena vão usar o retrato dele na polícia (aquele tirado quando ele foi flagrado com a prostituta Divine Brown). Gênio!

 

 

1 - Um Lugar Chamado Notting Hill

 

Sinopse: Hugh Grant é um livreiro que se apaixona pela maior estrela de Hollywood. O relacionamento entre estes dois mundos tão diferentes não é fácil.

Frase: “I live in Notting Hill. You live in Beverly Hills. Everyone in the world knows who you are, my mother has trouble remembering my name.”

Melhor cena: A entrevista coletiva no final

 

2 - Um Grande Garoto

 

Sinopse: Hugh Grant é um playboy, que vive dos direitos autorais de uma música natalina escrita pelo pai. A sua vida muda quando ele conhece um garoto problemático.

Frase: “I am an island. I am bloody Ibiza!”

Melhor cena: Hugh Grant e o garoto cantando “Killing me Softly”

 

 

3 - Simplesmente amor

 

Sinopse: São várias histórias de amor/desamor interligadas. Em uma delas, Hugh Grant é o primeiro-ministro da Inglaterra que se apaixona por uma funcionária do palácio.

Frase: “We may be a small country but we're a great one, too. The country of Shakespeare, Churchill, the Beatles, Sean Connery, Harry Potter. David Beckham's right foot. David Beckham's left foot, come to that. And a friend who bullies us is no longer a friend. And since bullies only respond to strength, from now onward, I will be prepared to be much stronger. And the President should be prepared for that.”

Melhor cena (do Hugh Grant): A busca pela amada na noite de Natal

 

4 - Letra e Música

 

Sinopse: Cantor de sucesso nos anos 80, Hugh Grant hoje está decadente. A sua sorte muda quando uma estrela do momento quer que ele escreva uma nova música. O problema é que ele não é letrista. Para ajudá-lo, entra em cena uma louca e charmosa Drew Barrymore.

Frase: "People wait their whole lives to see an ex when things are going really good. It never happens. You could make relationship history!"

Melhor cena: O clipe dos anos 80

 

5 - Quatro Casamentos e Um Funeral

 

Sinopse: Como o próprio nome diz, a história se passa em quatro casamentos e um funeral. Hugh Grant é um bon vivant inglês que foge do altar, até se apaixonar por uma americana.

Frase: "Dear Lord, forgive me for what I am about to, ah, say in this magnificent place of worship... Bugger! Bugger! Bugger, bugger, bugger, bugger!"

Melhor cena: O casamento do Hugh Grant



Categoria: Listas
Escrito por Lello Lopes às 13h02
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O quarto prato (parte 2 de 2)

(para ler a primeira parte, clique aqui)

 

            Era uma moça linda, que aparentava ter uns 27 anos. Os cabelos, maravilhosamente ruivos, caíam sedutores sobre os ombros largos. O rosto era angulado e determinado, quase arrogante. Os olhos, verdes, observavam a todos com carinho e atenção. Os lábios finos, levemente pintados de  vermelho, irradiavam uma luz incrível e escondiam um sorriso ora sarcástico, ora sincero. Confesso, meio encabulado, que fiquei bastante excitado quando a vi.

            Ninguém a apresentou, mas eu sabia quem ela era. Sempre soube. E quase me diverti, lembrando de histórias de terror, que a retratavam com uma grande capa roxa e com um cajado na mão. Só não explodi em gargalhadas porque estava realmente apavorado.

Ao mesmo tempo, um calor incrível subiu pelo corpo. Meus pêlos se eriçaram e senti uma espécie de choque na barriga. Fiquei louco de desejo por aquela mulher misteriosa, que invadiu as nossas vidas de repente e para sempre.

            Ela percebeu isso e me deu um sorriso provocador. Uma onda de frio subiu pela minha espinha, partindo do cóccix e chegando até a nuca. Por muito pouco não me engasguei com um maldito pedaço de frango. Um abençoado copo d’água me salvou. Ela, vendo minha situação embaraçada, lançou-me um olhar sensual. Parecia se divertir muito com isso. Era uma pessoa que realmente gostava de seu trabalho.

            Meu maior desejo era sair daquela mesa, daquela casa, daquela vida. Era pegar a Graziela e fugir para um canto qualquer do mundo, sem dar explicações a ninguém. Mas aquela mulher poderosa à minha frente não me deixava ir. Eu estava embriagado com seu perfume e sua beleza e, por mais que o bom senso mandasse eu sair a mil por hora, não conseguia me mexer.

            Depois de muito tempo consegui desviar os olhos de nossa misteriosa visitante. À minha esquerda, meu pai continuava a comer, como um glutão. Pedaços de coxa e sobrecoxa jaziam inúteis ao redor do seu prato. A comida parecia se encaixar melhor na barba mal cuidada do que na boca. Fiquei com nojo e tive de me esforçar muito para não vomitar. Já minha mãe estava cabisbaixa e triste. Percebi que quase não tocou na comida.

            Olhei para o relógio e vi que já haviam se passado duas horas desde que a ruiva misteriosa entrou em nossas vidas. Duas eternas horas. Foi quando ela acabou de jantar. Colocou os talheres sobre o quarto prato, limpou os lábios brilhantes com um guardanapo, virou-se para minha mãe e disse sua única palavra durante a noite:

– Vamos!

Devagar, a visitante levantou-se. Foi quando eu vi como ela era alta.

Deveria medir cerca de 2 metros. Trajava um vestido branco, de um tecido que parecia seda. Tinha o corpo perfeito. Eu já estava apaixonado.

            A visitante caminhou um pouco e parou atrás da cadeira da minha mãe. Em seguida, colocou suavemente as mãos sobre os ombros da minha velha e cansada mãe e deu uma leve apertada. Foi o suficiente. Mamãe olhou para cima e corajosamente também se levantou. As duas deram as mãos e começaram a sair da cozinha. Pararam na porta. Mamãe virou-se e olhou para o meu pai com uma expressão de ódio. Depois, olhou para mim e abaixou a cabeça. Estava chorando. Foi a última vez que a vi.

            Os meses sem a minha mãe foram confusos e difíceis. Não pela ausência dela, ou por eu ter assumido as tarefas domésticas. O mais complicado de tudo foi ficar longe da nossa visitante. O cheiro de seu perfume ainda estava em casa, bem de leve, mas quando eu o percebia respirava fundo e me sentia melhor, mais seguro.

É claro que sentia falta da minha mãe, das palavras de cuidado, do interesse pelos meus estudos, dos beijos de boa noite. Sentia saudade dela, mas a minha mãe não era a mulher da minha vida. Esse cargo sempre pertenceu à  nossa misteriosa visitante. E, ansiosamente, esperava o seu retorno.

Aos poucos, o meu relacionamento com a Graziela foi se deteriorando. As brigas, que eram escassas e infantis, tornaram-se cada vez mais freqüentes. Até os nossos beijos, sempre tão intensos, ficaram gélidos e sem graça. Quando Graziela me pediu um tempo, dizendo que não sabia mais se queria ficar comigo, eu não me senti triste. Falei algumas besteiras, coisas que os namorados dizem só para constar, pois sabia que não teríamos mais volta. E eu não me importei com isso. Nem um pouco.

O problema era que a solidão serviu para aumentar a saudade e a paixão pela minha visitante. Não tinha como encontrá-la, mas sabia que iria voltar. E ela voltou. Seis meses depois de sua primeira aparição, a moça ruiva passou em casa para levar o meu pai. Soube que era ela por causa do cheiro. O inconfundível perfume. Já na rua eu senti aquele aroma apaixonante. Deixei cair o meu material escolar na esquina e corri para casa. Tropecei na entrada e caí. Bati a cabeça. Sangue. Desmaio. Confusão. Quando acordei, já era de madrugada. E o perfume continuava lá, intacto. Mas não vi a minha amada visitante. E nunca me senti tão frustrado na vida quanto naquele dia.

Os dias seguintes foram horríveis. Não conseguia dormir ou comer. Adoeci. Tia Nena insistiu para que eu fosse morar com ela em Jundiaí, mas recusei. Disse que essa casa era a minha vida, pois guardava as últimas lembranças de papai e mamãe. Não sairia daqui por nada nesse mundo. A verdade é que esperava uma nova visita. E sabia que ela só aconteceria nesta casa. 

A espera foi estafante. Todas as noites colocava um prato a mais na mesa. Antes de jantar, tomava um longo banho e me perfumava. Queria estar deslumbrante no meu encontro. Esperei meses e meses pela terceira aparição da nossa misteriosa visitante. Em vão.

Mas finalmente chegou o grande dia. Hoje acordei com uma sensação estranha. Alguma coisa dentro de mim indicava que a minha espera tinha chegado ao fim. E estava certo. Passei o dia inteiro arrumando a casa. Cada cômodo. Cada canto. Cada detalhe. Reguei as flores do jardim e joguei água no quintal. Passei aspirador na sala e tirei o pó dos móveis. Limpei bem o chão da cozinha, o fogão, a pia. Arrumei a cama e coloquei ordem nos quartos. Tomei um banho quente, de quase uma hora, coloquei minha melhor roupa e passei o meu perfume mais caro.

Preparei o jantar: macarrão quatro queijos, torradas, salada, vinho. Coloquei dois pratos na mesa e senti o cheiro do perfume da minha visitante quando ela tocou a campainha. Feliz, meu coração disparou. E sorri com a idéia de que não precisarei lavar essa louça e nem arrumar a casa. Nunca mais.



Categoria: Contos
Escrito por Lello Lopes às 12h07
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O quarto prato (parte 1 de 2)

Foi aquele prato a mais na mesa que me fez desconfiar de que havia algo errado. O quarto prato. Até então, o dia transcorria na mais perfeita ordem. Pela manhã, acordei cedo e fui à escola. Era uma quinta-feira fria de inverno e eu tinha aula de matemática e inglês. Nunca fui um aluno brilhante, mas era esforçado e gostava de matemática. Tinha facilidade com os números e por mais de uma vez passei cola para os meus colegas, que retribuíam fazendo os meus trabalhos de história e geografia. E aquela foi uma quinta-feira normal – pelo menos até a hora do jantar. Uma brisa gelada, saída não sei de onde, rasgava o quarto e zumbia um barulho engraçado. Como sempre, demorei para sair da cama e me atrasei. Tomei um banho rápido e engoli o café da manhã – um copo grande de café com leite e um pão com manteiga.  Saí correndo, mas não consegui pegar o ônibus das 6h20. Cheguei ao colégio 15 minutos depois do horário e por pouco não perdi a primeira aula.

Depois da aula, fui até a casa da Graziela. Almocei com a dona Marta e o seu Alcides, que eu carinhosamente chamava de “sogrinha e sogrinho”. Tinha certeza que eles gostavam de mim e esperava retribuir o afeto. Mas nunca pensei em casar com a Graziela. Não porque não amasse a minha namorada, mas quando você tem 16 anos, o casamento é um pensamento irreal, distante, louco. Hoje, quatro anos mais velho, me pego rindo das minhas idéias de molecote. Coisas da vida.

À tarde, eu e Graziela fomos ao shopping center. Não tínhamos a intenção de comprar nada e realmente saímos de lá sem nenhum pacote. Foi uma tarde tranqüila e agradável, regada a conversas infantis e beijos adolescentes. Namorávamos havia cinco meses e estávamos em nosso melhor momento. Duas semanas antes, tínhamos transado pela primeira vez. No meu quarto, numa tarde em que a mamãe foi visitar a Tia Nena em Jundiaí. Depois deste dia, nossos passeios no shopping ficaram mais alegres. As mãos dada e os beijos demorados já não eram mais encarados com timidez, como se estivéssemos fazendo algo errado.

Adorava o frio e caminhar com a Graziela nas tardes de inverno era maravilhoso. Ainda me lembro do jeito que ela me olhava, com aqueles enormes olhos pretos, sempre tristes e carentes. Gostava de sentir a mão dela apertando a minha, às vezes com força, às vezes com ternura. E gostava mais ainda quando ela se aconchegava em meu peito, procurando carinho e proteção.

Naquele dia, naquela longa quinta-feira, cheguei em casa por volta das cinco da tarde. Dei um beijo em mamãe, que preparava o jantar, e fui para a sala jogar videogame. Viciado, ganhei com facilidade do computador. Fiquei cerca de uma hora sentado no chão, com os olhos grudados na telinha e o pensamento longe, perdido em algum canto quente e escuro entre as coxas da Graziela.

O jantar ficou pronto pontualmente às sete horas. Ouvi mamãe chamando e corri para a mesa. Foi quando vi o maldito quarto prato. Sentei no meu lugar, na cabeceira da mesa, e me perguntei o porquê de ter um prato a mais. Éramos três: eu, papai e mamãe, e dificilmente recebíamos visitas. Nunca para o jantar. Mesmo curioso, resolvi não perguntar o motivo daquele prato a mais na mesa. Estava faminto.

Lembro perfeitamente do rosto de mamãe naquela noite. Ela estava mais triste do que o normal. Parecia cansada e velha. Olheiras profundas indicavam noites mal dormidas. As mãos, trêmulas, quase derrubaram a panela de arroz no chão. Um suspiro fundo e barulhento foi tudo o que disse quando colocou a comida na mesa.

            Metade da minha fome se dissipou quando vi o que tínhamos para jantar. Arroz, salada e frango com batatinha. Para mim, a pior comida da face da Terra. Resignado, comecei a comer. Uma, duas garfadas, e já estava enjoado. Mesmo assim, cansado e com fome, continuei engolindo a comida, querendo acabar logo com aquilo.

O jantar transcorria em silêncio, como sempre. Nós não costumávamos falar enquanto comíamos. O único som vinha da televisão, que insistia em ficar ligada. O homem do jornal falava as mesmas velhas notícias de sempre: a inflação subiu não sei quantos porcento, um banco foi assaltado no centro da cidade, a baleia azul teve um lindo filhote no zoológico de Pequim, e por aí vai. Futilidades.

            Meu pai estava acabando de se servir pela segunda vez quando tocou a campainha. Minha mãe sobressaltou-se e eu vi em seus olhos algo que somente muito tempo depois pude entender que era medo. A expressão durou apenas um segundo e acho que foi a única vez em que ela sentiu medo naquela noite. Recomposta, levantou-se rapidamente e foi abrir a porta.

            Antes de ver a nossa ilustre visitante, pude sentir o aroma de seu perfume. Era uma fragrância nova, doce e forte ao mesmo tempo. O cheiro dominou a casa e, confesso, me deixou tonto e apaixonado. Acho que por um momento perdi os sentidos. Fechei os olhos e me esforcei para não cair. Lembro-me apenas de ter viajado, louco e intensamente vivo, por um universo desconhecido, repleto de ninfas e cercado de solidão. Sinceramente não sei quanto tempo fiquei assim. Quando voltei à realidade, ela, nossa inesperada visitante, já estava sentada à mesa. Em frente ao quarto prato.

 

(continua aqui)



Categoria: Contos
Escrito por Lello Lopes às 13h05
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Lello in Translation

Semana de folga é liberdade. Liberdade para dormir tarde e até tarde. Para visitar a casa nova da mana. Para começar a aprender uma receita nunca praticada (e que precisa ficar pronta -e muito boa- até a Páscoa, eheheh). Liberdade para arrumar a casa, os sonhos, o coração, a vida. E liberdade para colocar em dia planos que estão sendo adiados há anos, como pôr no ar fotos de viagem. Como ignorar a liberdade é desperdício, eis que aqui estão as fotos da viagem para o Japão.  Para quem não sabe, ou não se lembra, elas foram tiradas entre o final de outubro e o começo de dezembro em terras nipônicas, no meio da cobertura do Mundial de vôlei. Foi uma viagem longa e cansativa (mais de 40 dias), mas inesquecível. Clique aqui ou na foto e relembre comigo alguns daqueles momentos.



Categoria: Cotidiano
Escrito por Lello Lopes às 02h21
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Absolute Beginners


I've nothing much to offer
There's nothing much to take
I'm an absolute beginner
But I'm absolutely sane
As long as we're together
The rest can go to hell
I absolutely love you
But we're absolute beginners
With eyes completely open
But nervous all the same

If our love song
Could fly over mountains
Could laugh at the ocean
Just like the films
There's no reason
To feel all the hard times
To lay down the hard lines
It's absolutely true

Nothing much could happen
Nothing we can't shake
Oh we're absolute beginners
With nothing much at stake
As long as you're still smiling
There's nothing more I need
I absolutely love you
But we're absolute beginners
But if my love is your love
We're certain to succeed

If our love song
Could fly over mountains
Could sail over heartaches
Just like the films
If it's reason
To feel all the hard times
To lay down the hard lines
It's absolutely true



Categoria: Entretenimento
Escrito por Lello Lopes às 02h55
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Fragmentos

Não sabendo que era impossível, foi lá e não conseguiu fazer.

(Publicado originalmente em 25/03/04)



Categoria: Contos
Escrito por Lello Lopes às 13h20
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10h10 (parte 2 de 2)

(para ler a primeira parte, clique aqui)

10h10

            Perdido em pensamentos, Seu Motta nem viu o tempo passar. O metrô ainda sacolejava por entre o túnel quando o funcionário público voltou a si. Uma lágrima rasa escorreu-lhe pela face esquerda sem explicação, ao mesmo tempo em que um aperto no coração lhe tirou o ar por um segundo.

            Seu Motta olhou no relógio. 10h10. Olhou de novo e conferiu o horário. 10h10. Chacoalhou o pulso esquerdo e olhou mais uma vez. 10h10. “Acabou a merda da bateria”, concluiu, virando o pescoço para a janela em busca da estação. Do lado de fora, a única coisa que conseguiu enxergar foi a parede fria ao lado dos trilhos.

            Impaciente, levantou-se do banco e dirigiu-se à porta. O trem estava chegando ao destino, pensou. O sujeito mal-encarado que estava ao seu lado desferiu-lhe um olhar insignificante e ligeiro, e por um momento Seu Motta pensou tê-lo visto sorrir.

            A agitação dentro da composição continuava a mesma. As duas velhinhas ainda estavam conversando sobre cinema. Uma confidenciava à outra que era apaixonada por Rodolfo Valentino. O casal de namorados se beijava carinhosamente, enquanto a mãe finalmente convencera o filho a ficar quieto no banco. O gordo careca observava atentamente as tatuagens da menina com brinco na sobrancelha. Alheio a tudo a isso, o jovem forte e bonito permanecia no seu cochilo.

            Seu Motta tamborilava a porta, num ritual para que o trem chegasse rápido à estação. O temor de estar atrasado fez com que esquecesse dos pensamentos na família. O metrô seguia o seu ritmo, nem mais rápido e nem mais lento do que o normal. A diferença, no entanto, é que parecia andar em círculos, sem destino.

           

            10h10

            O gordo careca deu uma risada alta, cavernosa, e Seu Motta se assustou, dando dois passos para trás. O jovem forte e bonito levantou a cabeça, virou de lado e voltou a cochilar. As velhinhas pararam de falar e olharam de nariz torcido. O menino se animou e colocou-se novamente de pé. O casal de namorados parou de se beijar e se ajeitou no banco. O sujeito mal-encarado manteve-se impassível.

            Seu Motta olhou o relógio outra vez, mais por compulsão do que por esperança. O resultado foi o mesmo. 10h10. Mas ele tinha certeza de que a hora não era essa e de que já estava atrasado.

            O funcionário público chegou à conclusão de que o trem havia passado da estação e ele não tinha percebido. Por isso estava demorando tanto. Entretanto, passaram 15 minutos (pelo que ele julgou) e nada de aparecer outra estação. Cansado e confuso, Seu Motta voltou ao seu lugar.

            O sujeito mal-encarado, visivelmente contrariado em ter que dividir novamente o banco com alguém, recolheu-se ao seu canto, apertando bem entre as pernas a pasta que levava. Já o moço forte e bonito finalmente acordara. Estava bocejando forte do outro lado do vagão. Perto deles, o namorado disse alguma coisa engraçada para a namorada, que retribuía com risadinhas curtas e pulinhos no banco.

-         Você tem horas aí? Acho que o meu relógio está quebrado? – perguntou Seu Motta ao sujeito mal-encarado ao seu lado.

-         10h10 – respondeu o sujeito após consultar sem muita vontade o relógio.

-     É impressão minha ou este metrô tá demorado demais hoje?

-         Não sei, para mim está normal.

Seu Motta levantou-se do banco novamente, indo para a porta. Depois de um tempo, tentou forçá-la, mas não obteve sucesso. Passou para a porta do lado, mas também não conseguiu abri-la. As velhinhas pararam de conversar e o observaram repetir a tentativa pela terceira vez.

Um calor estranho subiu pelo peito, passou pelo pescoço e atingiu as têmporas de Seu Motta. Ele afrouxou o nó da gravata e abriu as mangas da camisa, mas não conseguiu evitar que seu rosto ficasse vermelho. Pela primeira vez na vida, sentiu uma necessidade premente de deixar um lugar.

 

10h10

Seu Motta olhou pela última vez para o relógio. Os ponteiros, num sorriso irônico, continuavam marcando 10h10. Ele arrancou a velharia do pulso e num lance rápido atacou-a ao chão. Depois, com o pé direito, esmagou o seu antigo companheiro.

O garotinho levou um susto, mas depois sorriu. O gordo também abriu um leve sorriso e levou um cutucão da menina de brinco na sobrancelha. O casal de namorados, mais preocupado com carícias íntimas, não reparou na cena.

Suando muito, Seu Motta sentiu os joelhos fraquejarem e precisou agarrar ao balaústre para não cair. O calor aumentara, e ele abrira os dois primeiros botões da camisa.

Seu Motta sentou-se um pouco, bem próximo ao jovem forte e bonito –que agora ouvia música.  A mãe do menininho lia um livro da Zíbia Gaspareto enquanto respondia vagamente às perguntas do filho. Os namorados estava apenas escorados um nos outros, como cisnes após o acasalamento. As velhinhas permaneciam de matracas abertas, falando de filhos e netos. O homem mal-encarado examinava desatentamente os papéis de sua pasta e o gordo e a amiga comentavam sobre um show de rock.

Olhando todos ao redor, Seu Motta teve a estranha sensação de que o tempo estava parado só para ele. Todos pareciam viver uma situação natural, enquanto ele estava  a uma, duas, três horas (já não sabia mais) tentando chegar à estação Santa Cruz.

Seu Motta encostou a cabeça na parede, fechou os olhos e pensou. Pensou que ainda estivesse dormindo, que aquilo fosse mais um dos pesadelos que passou a ter nos últimos meses. Pensou que tivesse enlouquecido, como tantas vezes lera nos jornais pela manhã. Pensou que talvez estivesse errado, que o metrô não demorara nada, que ainda eram 10h10. Pensou, pensou, pensou. E concluiu que estava lúcido e certo desde o começo. O metrô simplesmente esquecera de parar, estava dando voltas e voltas sem sentindo.

Decidido a dar um fim em tudo isso, levantou depressa do banco e acionou o alarme de emergência. O soco para quebrar a caixa de vidro provocou um corte fundo nos dedos médio e anular, mas a dor maior foi descobrir que o trem seguiu inabalável em seu caminho inútil.

 Desesperado, Seu Motta começou a gritar dentro do vagão, esmurrando portas e janelas. O sangue dos dedos caía em gotas grossas e sujava o chão do metrô. As velhinhas olharam horrorizadas e se deram as mãos. O menino se encolheu no colo da mãe e chorou. O jovem forte e bonito desligou o ipod e assistiu à cena assustado. O gordo careca tentou se levantar, mas foi impedido pela menina  de brinco na sobrancelha. O casal de namorados se abraçou fortemente e ficou de sobreaviso. O homem mal-encarado deu um sorriso sincero.

Sentindo um cansaço insuportável, Seu Motta parou no centro do vagão, quase sem ar. O suor havia empapado sua camisa e o sangue manchara sua calça. Um formigamento intenso veio como um furacão pela mão esquerda e numa velocidade impressionante já havia atingido todo o braço.

Inconscientemente, Seu Motta contraiu o pescoço e o jovem bonito teve a impressão de que a veia fosse saltar fora. A mão direita também se contraiu e um esguicho de sangue espirrou perto das velhinhas, que gritaram.

A respiração de Seu Motta ficou cada vez mais fraca, e as luzes do metrô se apagaram de repente.  Só então o coração começou a doer, e foi uma dor tão forte que ele nem teve tempo de colocar a mão no peito. Caiu morto no chão.

 

10h11

O trem chegou à estação.



Categoria: Contos
Escrito por Lello Lopes às 12h56
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10h10 (parte 1 de 2)

      10h10.

Seu Motta olhou maquinalmente para o relógio desgastado no pulso esquerdo. Ainda era cedo. Mais um minuto e ele chegaria à estação Santa Cruz do metrô. Depois, caminharia três quarteirões até um posto no INSS localizado na Vila Mariana, onde trabalhava havia 32 anos. Sua tarefa era fácil e repetitiva. Passava oito horas do dia carimbando e protocolando processos. Apesar de burocrático, era um trabalho importante, pois os papéis só poderiam seguir adiante se fossem devidamente carimbados e protocolados. E Seu Motta orgulhava-se de em todos estes anos não ter cometido um único erro ou atrasado um mísero processo que seja.

Todos os dias Seu Motta acordava às 9 horas em ponto. Tomava uma xícara de café bem amargo e comia um pão com manteiga, preparados por sua esposa Maria. Depois, lia a página de Esportes do jornal, então a de Política e a de Economia. Tomava um banho de 15 minutos, colocava uma calça social bege (tinha uma dezena delas), uma meia escura e uma camisa engomada. Beijava a mulher, as duas filhas adolescentes e ia trabalhar.

Morava no Jabaquara e levava uns dez minutos para chegar ao trabalho. Entretanto, saía meia hora antes de casa apenas para não correr o risco de ter um atraso em seu prontuário. Nos 32 anos de trabalho no INSS, podia-se contar nos dedos as vezes em que Seu Motta se atrasou.

 

10h10.

O metrô, a este horário, estava vazio. Seu Motta gostava de ficar bem no meio da composição, e observava desatentamente os passageiros que o acompanhavam na viagem. Ficava pensando na casa, nas meninas cada vez mais crescidas, começando a namorar. Isabella, a mais velha, estava ficando desbocada e desobediente e merecera a bronca que levara na noite anterior. Anita seguia o exemplo da irmã e também estava dando trabalho para ele e Maria.

Seu Motta esqueceu um pouco os pensamentos nas meninas e se concentrou nos passageiros do metrô. Era uma quinta-feira de inverno, mas estava quente e ninguém parecia se incomodar com o calor das últimas semanas.

            Ao seu lado seguia viagem um homem mal-encarado. Tinha os olhos muito negros e uma expressão fria e triste. Descansava sob os seus pés uma destas pastas de executivo. No banco da frente, duas velhinhas bem vestidas tagarelavam alegremente sobre filmes antigos. Mais adiante, um casal de namorados trocavam confidências ao pé do ouvido. No banco seguinte, um jovem forte e bonito cochilava escorado no balaústre, deixando sua mochila no colo.

Um gordo careca, com uma camisa suja do Sepultura, mostrava sua nova tatuagem a uma menina com um brinco na sobrancelha. Do lado deles, uma mulher tentava fazer o seu filho de seis anos terminar a viagem sentado.

 

10h10.

Seu Motta olhou novamente o relógio e teve a sensação de que já deveria ter chegado na estação Santa Cruz, mas o metrô seguia serpenteando por cima dos trilhos. Do lado de fora, tudo parecia normal. Estava escuro, é claro, mas ele reconheceu o caminho que percorrera nos últimos 32 anos.

Nem sempre Seu Motta quis trabalhar no serviço público. Na juventude, o seu sonho era ser advogado. Mas os pais, imigrantes espanhóis, não tinham como pagar uma boa faculdade. Assim, com muito sacrifício, ele concluiu o segundo grau e passou a procurar um emprego público, que lhe daria estabilidade por toda a vida.

Antes de arrumar vaga no INSS, Seu Motta fez de tudo um pouco. Trabalhou como office-boy, ajudante de pedreiro, empacotador de supermecado e vendedor. Dois meses depois de completar 20 anos soube que o governo contrataria milhares de funcionários. Inscreveu-se no concurso, estudou bastante e conseguiu ser aprovado.

No começo, ficou encantado com a repartição. Era nova e funcional. Seu Motta dedicou-se bastante à sua função e em pouco tempo já era especialista no assunto.

            Sonhava em crescer no serviço público. Quem sabe até arrumar um cargo de chefia, com sala própria e meia dúzia de subordinados. Não que o salário que ganhava fosse ruim. Muito pelo contrário. Era o dobro daquilo recebido por seu velho pai. Mas Seu Motta era moleque.  E tinha esperança.

            O tempo passou, a esperança arrefeceu, o sonho morreu. A promoção tão desejada nunca veio. Seu Motta percebeu que precisava muito mais do que competência para crescer no serviço público. E ele, que nunca foi de bajular os chefes ou puxar o tapete dos colegas, acabou sendo esquecido em seu canto empoeirado.

Por mais de uma vez Seu Motta pensou em abandonar o emprego. Mas o salário de funcionário público e a responsabilidade de cuidar dos pais doentes o fizeram esquecer a idéia.

Se o trabalho não lhe rendeu a alegria desejada, pelo menos lhe trouxe uma bênção, a maior de todas. Uma bênção  chamada Maria. No começo da década de 80, Maria procurou o posto do INSS para tratar da aposentadoria da avó.  Seu Motta, então com pouco mais de 30 anos, se encantou com o sorriso daquela menina recém-saída da adolescência.

A ajuda do funcionário foi fundamental para que o auxílio da avó de Maria fosse liberado rapidamente. Os dois ficaram amigos e, depois de um breve período, já estavam namorando.

A família dela foi contra, indignada com o fato de Seu Motta ser 12 anos mais velho. Mesmo assim, ninguém conseguiu demover Maria da idéia de casar e os dois acabaram indo para o altar numa bonita cerimônia na igreja da Consolação. Ninguém da repartição foi ao casamento.

Com o pai já morto (ataque do coração enquanto pescava em 1975)  e a mãe bastante doente, Seu Motta resolveu continuar morando no bairro do Jabaquara. Conseguiu um mês e meio de férias do trabalho e fez a maior loucura da sua vida: passou a lua-de-mel numa praia da Bahia.

De volta ao batente, a rotina continuava a mesma: carimbar, protocolar, anexar. Em casa, era outra história. Cada detalhe da vida a dois era uma novidade, um encantamento.

Depois de três anos, achou estranho que a mulher ainda não havia engravidado. Levou a esposa ao médico e descobriu que Maria tinha um problema no útero e que dificilmente poderia ficar grávida. O mundo de Seu Motta caiu. Afinal, o que ele mais queria na vida era ter um menino-homem para poder levá-lo aos jogos do Palmeiras no Parque Antarctica.

No final da década, Seu Motta teve uma grande surpresa. A regra de Maria não veio num mês. No outro, a mulher passou a sentir enjôos. Correram às pressas para o médico e o milagre se deu: ela estava grávida.

No final de outubro Maria deu a luz a uma menina de cabelos pretos como a noite, chamada Isabella. Seu Motta ficou um pouco decepcionado com o fato de não ter sido um menino, mas logo se afeiçoou pela filha e a elegeu sua maior paixão.

Quatro anos depois, o milagre se repetiu. Maria-que-não-podia-ter-filhos pariu outra menina. De cabelos cacheados e pele rosada, Anita virou xodó no hospital. Até hoje na maternidade Santa Luzia há quem diga que Anita é a criança mais linda já nascida por lá.

(continua aqui)



Categoria: Contos
Escrito por Lello Lopes às 00h49
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Coisa boa é pra sempre

Quem leu o post abaixo pode pensar que eu odeio o Carnaval. Não é verdade. Já fui um folião animado, com direito a bailinhos e desfiles. Quando criança, ficava acordado à noite tentando ver o meu pai na TV no desfile da Colorado do Brás. Lembro de uma vez que ele saiu fantasiado de leão, e de uma ou outra oportunidade eu tê-lo acompanhado na quadra da escola.

 

Naquela época, adorava a apuração. Assistia com bastante atenção, anotando as notas e fazendo as contas. Por anos, gastei tempo, papel e caneta com isso. Quando tive o meu primeiro computador, em 1994, fiz o scout digital, com o Excel. Uma modernidade.

 

Em 1995 tive o meu melhor Carnaval. Por algum motivo obscuro, minha mãe e minha irmã decidiram ir ver o desfile das escolas de samba no Sambódromo do Anhembi. Fomos então à quadra da Nenê da Vila Matilde comprar os ingressos. Queríamos o de um setor intermediário, por R$ 40. Mas só tinham os ingressos mais caros, de R$ 50. Com a anuência do Seu Nenê, ficamos com os ingressos de elite pagando o preço mais baixo.

 

No desfile, que era realizado em um único dia, chegamos cedo e pegamos um bom lugar. A arquibancada era provisória e quase desabou quando a Gaviões da Fiel entrou na avenida cantando o enredo “Coisa Boa é Pra Sempre”.

 

Foi um frenesi total, uma loucura. Posso jurar que todo mundo no sambódromo cantou o samba do início ao fim do desfile. Uma catarse coletiva somente comparável aos estádios em dia de decisões.

 

O desfile foi um marco no Carnaval paulistano, com uma qualidade que serviu de base para a grandiosidade atual. E a Gaviões, que havia sido assaltada no ano anterior (quando também fez um desfile inesquecível com o enredo A Saliva do Santo e o Veneno da Serpente, cantado até hoje no Pacaembu), conquistou merecidamente o primeiro dos seus quatro títulos.

 

Depois disso, passei a acompanhar cada vez menos o Carnaval. A contagem dos pontos sumiu, assim com as madrugadas insones em frente à TV. Sobraram os bailinhos, mas agora com objetivos mais lascivos. E quase sempre infrutíferos, é claro.

 

Mesmo assim, respeito o Carnaval, com sua entrega, choro, bebedeira, sordidez e desbunde. E um dia ainda cumpro a promessa anual que faço com a minha irmã de desfilar na Nenê.

 


Me de a mão me abraça
viaja comigo pro céu
sou Gavião levanto a taça
com muito orgulho prá delírio da Fiel


Um brinde ao jubileu de prata
convido a massa prá comemorar
explode um grito na galera
tem gol de fera para delirar


Hoje sou criança
reino encantado
de brinquedo e fantasia
na minha lembrança
sonhei dourado e brinquei de poesia


Vou te levar, pro infinito
vou te beijar de um jeito mais bonito
ai que gostoso amor, ai que saudade
te amo, te amo de verdade


Fadas e rainhas
mil heróis na minha estória
o que é bom prá sempre
fica gravado na memória
Pierrô, Arlequim, Colombina
tudo mundo quer sambar
se enroscar na serpentina


Olha prá min
abre o teu sorriso
é carnaval, sou o rei do riso
vou gargalhar, quero alegria
lavar a alma com o som da bateria



Categoria: Cotidiano
Escrito por Lello Lopes às 00h04
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Carnaval

Chove em São Paulo. Uma chuva fria, chata, insistente. Que