Pegadas na areia – Morte
Foi a chuva fina que o acordou. O mundo parecia extremamente difuso. Sabia que as pessoas gritavam, mas não conseguia ouvir. E o chão se tornou um lugar confortável, quase um lar.
Ao lado, estrelas dançavam um balé confuso. Ele sorriu. E o peito doeu intensamente, fazendo-o recuperar um pouco da consciência.
A chuva apertou e trouxe com ela o som da cidade. Sirenes, choro, dor. Um vulto passou apressado por ele, disparando um olhar de nojo e piedade. A coisa estava feia, imaginou. E não se importou.
Tentou virar de lado, mas não conseguiu. Um gosto estranho tomou conta da boca. Azedo, íntimo e desconfortável. No chão, as estrelas se transformaram em pequenos cacos de vidro, mas continuavam a dançar.
Com o olhar fixo nas ex-estrelas, ele nem percebeu a chegada da moça. Mesmo à noite e sob chuva, ela era bela. Belíssima. A pele era clara e contrastava com o cabelo incrivelmente preto. Os olhos, também negros, eram sagazes e carinhosos. No peito, cobrindo um farto decote, brilhava uma ankh.
- Olá – ela disse, em um tom jovial que retumbou em todo o quarteirão. – Eu sei que tudo está confuso, mas logo logo isso vai acabar. Está pronto?
Ele finalmente conseguiu virar o pescoço. E a viu, brilhando sob a luz do poste. Ao fundo, conseguiu vislumbrar o carro capotado. – Ei, você sabe quem eu sou? – foi a primeira coisa que conseguiu dizer.
- Sei. E é por isso que estou aqui – respondeu, com ternura.
Uma súbita compreensão tomou conta dele. E um vazio muito grande o fez chorar. Logo agora que as coisas tinham se acertado, que iria ser pai pela primeira vez, que estava de fato feliz.
- Não é justo, não agora, ainda não é a hora – disse, mas as palavras não saíram, foram pensamentos fortes.
- Vocês sempre acham que nunca é justo, eu sei. Mas as coisas são o que são. É simples assim.
Então ela se curvou e o beijou. Uma explosão de cores e lembranças invadiu a mente dele. O mundo ficou parado por alguns segundos. A dor sumiu. Êxtase total. E a última coisa que ouviu antes de se apagar foi o som de asas.



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Escrito por Lello Lopes às 13h22