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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, French MSN - lellolopes@hotmail.com
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Contos
Pegadas na areia – Morte
Foi a chuva fina que o acordou. O mundo parecia extremamente difuso. Sabia que as pessoas gritavam, mas não conseguia ouvir. E o chão se tornou um lugar confortável, quase um lar.
Ao lado, estrelas dançavam um balé confuso. Ele sorriu. E o peito doeu intensamente, fazendo-o recuperar um pouco da consciência.
A chuva apertou e trouxe com ela o som da cidade. Sirenes, choro, dor. Um vulto passou apressado por ele, disparando um olhar de nojo e piedade. A coisa estava feia, imaginou. E não se importou.
Tentou virar de lado, mas não conseguiu. Um gosto estranho tomou conta da boca. Azedo, íntimo e desconfortável. No chão, as estrelas se transformaram em pequenos cacos de vidro, mas continuavam a dançar.
Com o olhar fixo nas ex-estrelas, ele nem percebeu a chegada da moça. Mesmo à noite e sob chuva, ela era bela. Belíssima. A pele era clara e contrastava com o cabelo incrivelmente preto. Os olhos, também negros, eram sagazes e carinhosos. No peito, cobrindo um farto decote, brilhava uma ankh.
- Olá – ela disse, em um tom jovial que retumbou em todo o quarteirão. – Eu sei que tudo está confuso, mas logo logo isso vai acabar. Está pronto?
Ele finalmente conseguiu virar o pescoço. E a viu, brilhando sob a luz do poste. Ao fundo, conseguiu vislumbrar o carro capotado. – Ei, você sabe quem eu sou? – foi a primeira coisa que conseguiu dizer.
- Sei. E é por isso que estou aqui – respondeu, com ternura.
Uma súbita compreensão tomou conta dele. E um vazio muito grande o fez chorar. Logo agora que as coisas tinham se acertado, que iria ser pai pela primeira vez, que estava de fato feliz.
- Não é justo, não agora, ainda não é a hora – disse, mas as palavras não saíram, foram pensamentos fortes.
- Vocês sempre acham que nunca é justo, eu sei. Mas as coisas são o que são. É simples assim.
Então ela se curvou e o beijou. Uma explosão de cores e lembranças invadiu a mente dele. O mundo ficou parado por alguns segundos. A dor sumiu. Êxtase total. E a última coisa que ouviu antes de se apagar foi o som de asas.
Escrito por Lello Lopes às 13h22
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Pegadas na areia – Destino
A estrada serpenteia a montanha em curvas bonitas e perigosas. A vista compensa o risco. Ele sabe e saboreia, como um doce de infância que dá dor de dente. Sem ter para onde ir, o que resta é exatamente isso: vista e risco.
No pé da serra, a estrada se divide em três. Sem placas, sem orientação. Como havia pedido. Caminho sem volta. Uma viagem até acabar a gasolina, ou até o Santanão pedir arrego.
Um velho cego caminha descalço pelo acostamento. Ele não vê o carro, mas sabe o que está acontecendo. Ele sabe de tudo. Por isso ergue as mãos e acena, desejando boa sorte ao viajante.
O motorista só vê o cego pelo retrovisor. O que mais o espanta não é o jeito maltrapilho do sujeito, ou o fato do rosto estar carcomido pelo tempo. O que o assusta é o pesado livro que o cego tem acorrentado no braço.
Ele liga o rádio do carro. A música alta o acalma e distrai. O ar puro do campo o reconforta. O cego vira apenas uma lembrança pálida, esfumaçada. Uma lembrança perdida entre outras, de coxas ingratas e de beijos sem amor. Uma lembrança que não voltará à tona. Como as outras.
O motorista segue o caminho. Ele ainda não sabe para onde. E não se importa. Só quer ir em frente, sem medo, porque acredita que no final da estrada terá o que procura.
Enquanto isso, no acostamento, o cego sorri. Ele sabe de tudo.
Escrito por Lello Lopes às 14h49
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Pontuação
Um ponto. Interrogação. Vírgula. Reticências.
E finalizamos por hoje.
Escrito por Lello Lopes às 00h24
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O recado
Um recado simples
Escrito a giz na lousa
Letras trêmulas
De amor, de saudade
Um recado para marcar presença
E esquentar a casa fria
E encher o coração de lembranças
Visões de você em todos os cômodos
Em todas as formas
E sabores
Nós dois contra o resto do mundo
Um recado sem distância
Que sussurra coisas belas
E encanta
Como o teu sorriso
Que ainda refresca o ar
Um recado
Uma pergunta
E a resposta é única
Ontem, hoje, sempre
Como se você já não soubesse
SIM!
Escrito por Lello Lopes às 00h08
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A estrada à noite
Cabeça no vidro gelado
Pensamentos distantes
E uma chuva fina que cai
Para atrapalhar a viagem
De volta para casa
Como voltar, se tudo o que importa ficou?
E eu trago lembranças de cores, beijos e sons
E uma saudade sem fim
Que me acompanha
Em todo o percurso
A estrada
Marca de uma distância irreal
Nada nos separa
Nem o caminho, nem o tempo
Porque somos caminho e tempo
E agora, com a cabeça no vidro gelado
Sacolejando pela estrada à noite
Reavivo a certeza
De que o mundo só faz sentido
Por você
Escrito por Lello Lopes às 01h18
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Poesia
Poesia é um olhar cativante
Poesia é fazer contagem regressiva
Poesia é sonhar acordado o dia todo
Poesia é um almoço no estrangeiro
Poesia é a noite insone
Poesia é um abraço, um beijo e mãos dadas
Poesia é combinar camisa de time e luva cirúrgica
Poesia é aprender a fazer sorvete de manjericão
Poesia é se perder num passeio de carro
Poesia é uma coincidência quase sem querer
Poesia é sintonia e sincronismo
Poesia é uma vaca radioativa
Poesia é inventar nomes
Poesia é esquecer de tudo
Poesia é água que cai sem parar
Poesia é um sorriso sem fim
Poesia é a ‘completude’
Poesia é a certeza
Poesia é hoje, amanhã e sempre
Poesia somos eu e você
Escrito por Lello Lopes às 21h15
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A consulta
- Doutor, acho que estou doente. - O que você está sentindo, meu filho? - Ah, doutor, meu corpo está estranho. Minhas pernas tremem sem querer, sinto a boca seca, um frio na barriga... - E você tem tido dificuldade para dormir? - Tenho sim, doutor. Fico na cama, horas e horas, olhando para o teto. Com um aperto no coração. - Deixa eu ver suas mãos. Ah, elas estão frias e suadas. Interessante. - Ai meu Deus, o que será que eu tenho? - Tenho um palpite. Mas preciso fazer mais algumas perguntas. Você sente falta de ar? - Muita doutor, muita. - E uma angústia infinita? - Angústia demais. Como se o mundo fosse acabar em cinco minutos. Como se minha vida toda dependesse de uma escolha que eu não tenho como fazer. Como se um buraco-negro me engolisse. Como um caldeirão em chamas. Uma angústia que não consigo descrever. - Então já sei o diagnóstico. - Ai meu Deus, é grave? É de morte? - Calma, não se preocupe. Você só está apaixonado. - Como assim apaixonado? Isso é impossível. - Não, não é. Todos os sintomas que você me descreveu são sintomas de paixão. - Mas não pode ser. A paixão não é que nem caxumba, que quando se pega uma vez não se pega mais? - Não, meu filho. A paixão é como a gripe. Por mais que você se imunize, ela vai te pegar várias e várias vezes na vida. Às vezes o nosso organismo cria anticorpos que afastam esse vírus por muitos anos. Outras, o corpo está tão debilitado que a paixão oportunista aparece e se instala mês a mês, dia a dia. Conheço casos de gente que chegou a pegar dois ou três vírus diferentes de paixão ao mesmo tempo. - Ai doutor, faz tanto tempo que eu não pego paixão que eu nem me lembro mais do que é isso. Da última vez foi tão forte que eu pensei que fosse morrer. Por isso jurei pra mim mesmo que nunca mais ia deixar isso me pegar. Tomei todos os cuidados, evitei ao máximo me expor a esse risco. Mas acho que falhei. - Não, você não falhou. O vírus é poderosíssimo. Se esconde onde você menos espera. Qualquer um corre o risco de pegá-lo. - E agora, o que eu faço? - Na verdade agora não tem muito a fazer. Eu aconselho os meus pacientes a tratarem o vírus com entrega, seriedade e diversão. E cama, muita cama, é claro. - Doutor, estou com medo. Da última vez o vírus demorou quatro anos para ir embora. E quando foi deixou uma ferida profunda no coração. - Você não deve ter tratado a doença com cuidado. Seja mais cuidadoso agora. Tente lembrar do que fez de errado na última vez em que esteve de paixão. Talvez a entrega não tenha sido boa. Talvez tenha faltado cama. Como não era o seu médico na época, não posso dizer se o tratamento foi adequado ou não. Mesmo porque existem milhões de vírus diferentes de paixão. E alguns deles, apesar de toda a evolução da ciência nos últimos anos, vão acabar te machucando de alguma maneira. Por isso, é importante não descuidar do tratamento. Tome o que eu prescrevi. Se por um acaso o tratamento não der resultado, volte a me procurar. - Obrigado doutor. Espero que desta vez dê tudo certo. - Vai dar certo, meu filho. Vai dar certo.
(Publicado originalmente em 21/06/04, mas que só agora faz sentido)
Escrito por Lello Lopes às 23h58
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Recanto Dourado
A areia quente escalda o corpo inerte A brisa do mar embala o rosto imberbe E a água verde do Atlântico vem lamber os seus pés À noite, a Lua espia do Céu E meneia a cabeça em sinal de reverências As estrelas cantam uma melodia simples E os planetas giram apenas para se exibirem Cortejo maior faz o Sol Imponente, desperta do meio do oceano toda a manhã E afugenta a Lua, as estrelas, os planetas Apenas para iluminar o seu recanto dourado
(Publicado originalmente em 07/05/04)
Escrito por Lello Lopes às 13h06
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O quarto prato (parte 2 de 2)
(para ler a primeira parte, clique aqui)
Era uma moça linda, que aparentava ter uns 27 anos. Os cabelos, maravilhosamente ruivos, caíam sedutores sobre os ombros largos. O rosto era angulado e determinado, quase arrogante. Os olhos, verdes, observavam a todos com carinho e atenção. Os lábios finos, levemente pintados de vermelho, irradiavam uma luz incrível e escondiam um sorriso ora sarcástico, ora sincero. Confesso, meio encabulado, que fiquei bastante excitado quando a vi.
Ninguém a apresentou, mas eu sabia quem ela era. Sempre soube. E quase me diverti, lembrando de histórias de terror, que a retratavam com uma grande capa roxa e com um cajado na mão. Só não explodi em gargalhadas porque estava realmente apavorado.
Ao mesmo tempo, um calor incrível subiu pelo corpo. Meus pêlos se eriçaram e senti uma espécie de choque na barriga. Fiquei louco de desejo por aquela mulher misteriosa, que invadiu as nossas vidas de repente e para sempre.
Ela percebeu isso e me deu um sorriso provocador. Uma onda de frio subiu pela minha espinha, partindo do cóccix e chegando até a nuca. Por muito pouco não me engasguei com um maldito pedaço de frango. Um abençoado copo d’água me salvou. Ela, vendo minha situação embaraçada, lançou-me um olhar sensual. Parecia se divertir muito com isso. Era uma pessoa que realmente gostava de seu trabalho.
Meu maior desejo era sair daquela mesa, daquela casa, daquela vida. Era pegar a Graziela e fugir para um canto qualquer do mundo, sem dar explicações a ninguém. Mas aquela mulher poderosa à minha frente não me deixava ir. Eu estava embriagado com seu perfume e sua beleza e, por mais que o bom senso mandasse eu sair a mil por hora, não conseguia me mexer.
Depois de muito tempo consegui desviar os olhos de nossa misteriosa visitante. À minha esquerda, meu pai continuava a comer, como um glutão. Pedaços de coxa e sobrecoxa jaziam inúteis ao redor do seu prato. A comida parecia se encaixar melhor na barba mal cuidada do que na boca. Fiquei com nojo e tive de me esforçar muito para não vomitar. Já minha mãe estava cabisbaixa e triste. Percebi que quase não tocou na comida.
Olhei para o relógio e vi que já haviam se passado duas horas desde que a ruiva misteriosa entrou em nossas vidas. Duas eternas horas. Foi quando ela acabou de jantar. Colocou os talheres sobre o quarto prato, limpou os lábios brilhantes com um guardanapo, virou-se para minha mãe e disse sua única palavra durante a noite:
– Vamos!
Devagar, a visitante levantou-se. Foi quando eu vi como ela era alta.
Deveria medir cerca de 2 metros. Trajava um vestido branco, de um tecido que parecia seda. Tinha o corpo perfeito. Eu já estava apaixonado.
A visitante caminhou um pouco e parou atrás da cadeira da minha mãe. Em seguida, colocou suavemente as mãos sobre os ombros da minha velha e cansada mãe e deu uma leve apertada. Foi o suficiente. Mamãe olhou para cima e corajosamente também se levantou. As duas deram as mãos e começaram a sair da cozinha. Pararam na porta. Mamãe virou-se e olhou para o meu pai com uma expressão de ódio. Depois, olhou para mim e abaixou a cabeça. Estava chorando. Foi a última vez que a vi.
Os meses sem a minha mãe foram confusos e difíceis. Não pela ausência dela, ou por eu ter assumido as tarefas domésticas. O mais complicado de tudo foi ficar longe da nossa visitante. O cheiro de seu perfume ainda estava em casa, bem de leve, mas quando eu o percebia respirava fundo e me sentia melhor, mais seguro.
É claro que sentia falta da minha mãe, das palavras de cuidado, do interesse pelos meus estudos, dos beijos de boa noite. Sentia saudade dela, mas a minha mãe não era a mulher da minha vida. Esse cargo sempre pertenceu à nossa misteriosa visitante. E, ansiosamente, esperava o seu retorno.
Aos poucos, o meu relacionamento com a Graziela foi se deteriorando. As brigas, que eram escassas e infantis, tornaram-se cada vez mais freqüentes. Até os nossos beijos, sempre tão intensos, ficaram gélidos e sem graça. Quando Graziela me pediu um tempo, dizendo que não sabia mais se queria ficar comigo, eu não me senti triste. Falei algumas besteiras, coisas que os namorados dizem só para constar, pois sabia que não teríamos mais volta. E eu não me importei com isso. Nem um pouco.
O problema era que a solidão serviu para aumentar a saudade e a paixão pela minha visitante. Não tinha como encontrá-la, mas sabia que iria voltar. E ela voltou. Seis meses depois de sua primeira aparição, a moça ruiva passou em casa para levar o meu pai. Soube que era ela por causa do cheiro. O inconfundível perfume. Já na rua eu senti aquele aroma apaixonante. Deixei cair o meu material escolar na esquina e corri para casa. Tropecei na entrada e caí. Bati a cabeça. Sangue. Desmaio. Confusão. Quando acordei, já era de madrugada. E o perfume continuava lá, intacto. Mas não vi a minha amada visitante. E nunca me senti tão frustrado na vida quanto naquele dia.
Os dias seguintes foram horríveis. Não conseguia dormir ou comer. Adoeci. Tia Nena insistiu para que eu fosse morar com ela em Jundiaí, mas recusei. Disse que essa casa era a minha vida, pois guardava as últimas lembranças de papai e mamãe. Não sairia daqui por nada nesse mundo. A verdade é que esperava uma nova visita. E sabia que ela só aconteceria nesta casa.
A espera foi estafante. Todas as noites colocava um prato a mais na mesa. Antes de jantar, tomava um longo banho e me perfumava. Queria estar deslumbrante no meu encontro. Esperei meses e meses pela terceira aparição da nossa misteriosa visitante. Em vão.
Mas finalmente chegou o grande dia. Hoje acordei com uma sensação estranha. Alguma coisa dentro de mim indicava que a minha espera tinha chegado ao fim. E estava certo. Passei o dia inteiro arrumando a casa. Cada cômodo. Cada canto. Cada detalhe. Reguei as flores do jardim e joguei água no quintal. Passei aspirador na sala e tirei o pó dos móveis. Limpei bem o chão da cozinha, o fogão, a pia. Arrumei a cama e coloquei ordem nos quartos. Tomei um banho quente, de quase uma hora, coloquei minha melhor roupa e passei o meu perfume mais caro.
Preparei o jantar: macarrão quatro queijos, torradas, salada, vinho. Coloquei dois pratos na mesa e senti o cheiro do perfume da minha visitante quando ela tocou a campainha. Feliz, meu coração disparou. E sorri com a idéia de que não precisarei lavar essa louça e nem arrumar a casa. Nunca mais.
Escrito por Lello Lopes às 12h07
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O quarto prato (parte 1 de 2)
Foi aquele prato a mais na mesa que me fez desconfiar de que havia algo errado. O quarto prato. Até então, o dia transcorria na mais perfeita ordem. Pela manhã, acordei cedo e fui à escola. Era uma quinta-feira fria de inverno e eu tinha aula de matemática e inglês. Nunca fui um aluno brilhante, mas era esforçado e gostava de matemática. Tinha facilidade com os números e por mais de uma vez passei cola para os meus colegas, que retribuíam fazendo os meus trabalhos de história e geografia. E aquela foi uma quinta-feira normal – pelo menos até a hora do jantar. Uma brisa gelada, saída não sei de onde, rasgava o quarto e zumbia um barulho engraçado. Como sempre, demorei para sair da cama e me atrasei. Tomei um banho rápido e engoli o café da manhã – um copo grande de café com leite e um pão com manteiga. Saí correndo, mas não consegui pegar o ônibus das 6h20. Cheguei ao colégio 15 minutos depois do horário e por pouco não perdi a primeira aula.
Depois da aula, fui até a casa da Graziela. Almocei com a dona Marta e o seu Alcides, que eu carinhosamente chamava de “sogrinha e sogrinho”. Tinha certeza que eles gostavam de mim e esperava retribuir o afeto. Mas nunca pensei em casar com a Graziela. Não porque não amasse a minha namorada, mas quando você tem 16 anos, o casamento é um pensamento irreal, distante, louco. Hoje, quatro anos mais velho, me pego rindo das minhas idéias de molecote. Coisas da vida.
À tarde, eu e Graziela fomos ao shopping center. Não tínhamos a intenção de comprar nada e realmente saímos de lá sem nenhum pacote. Foi uma tarde tranqüila e agradável, regada a conversas infantis e beijos adolescentes. Namorávamos havia cinco meses e estávamos em nosso melhor momento. Duas semanas antes, tínhamos transado pela primeira vez. No meu quarto, numa tarde em que a mamãe foi visitar a Tia Nena em Jundiaí. Depois deste dia, nossos passeios no shopping ficaram mais alegres. As mãos dada e os beijos demorados já não eram mais encarados com timidez, como se estivéssemos fazendo algo errado.
Adorava o frio e caminhar com a Graziela nas tardes de inverno era maravilhoso. Ainda me lembro do jeito que ela me olhava, com aqueles enormes olhos pretos, sempre tristes e carentes. Gostava de sentir a mão dela apertando a minha, às vezes com força, às vezes com ternura. E gostava mais ainda quando ela se aconchegava em meu peito, procurando carinho e proteção.
Naquele dia, naquela longa quinta-feira, cheguei em casa por volta das cinco da tarde. Dei um beijo em mamãe, que preparava o jantar, e fui para a sala jogar videogame. Viciado, ganhei com facilidade do computador. Fiquei cerca de uma hora sentado no chão, com os olhos grudados na telinha e o pensamento longe, perdido em algum canto quente e escuro entre as coxas da Graziela.
O jantar ficou pronto pontualmente às sete horas. Ouvi mamãe chamando e corri para a mesa. Foi quando vi o maldito quarto prato. Sentei no meu lugar, na cabeceira da mesa, e me perguntei o porquê de ter um prato a mais. Éramos três: eu, papai e mamãe, e dificilmente recebíamos visitas. Nunca para o jantar. Mesmo curioso, resolvi não perguntar o motivo daquele prato a mais na mesa. Estava faminto.
Lembro perfeitamente do rosto de mamãe naquela noite. Ela estava mais triste do que o normal. Parecia cansada e velha. Olheiras profundas indicavam noites mal dormidas. As mãos, trêmulas, quase derrubaram a panela de arroz no chão. Um suspiro fundo e barulhento foi tudo o que disse quando colocou a comida na mesa.
Metade da minha fome se dissipou quando vi o que tínhamos para jantar. Arroz, salada e frango com batatinha. Para mim, a pior comida da face da Terra. Resignado, comecei a comer. Uma, duas garfadas, e já estava enjoado. Mesmo assim, cansado e com fome, continuei engolindo a comida, querendo acabar logo com aquilo.
O jantar transcorria em silêncio, como sempre. Nós não costumávamos falar enquanto comíamos. O único som vinha da televisão, que insistia em ficar ligada. O homem do jornal falava as mesmas velhas notícias de sempre: a inflação subiu não sei quantos porcento, um banco foi assaltado no centro da cidade, a baleia azul teve um lindo filhote no zoológico de Pequim, e por aí vai. Futilidades.
Meu pai estava acabando de se servir pela segunda vez quando tocou a campainha. Minha mãe sobressaltou-se e eu vi em seus olhos algo que somente muito tempo depois pude entender que era medo. A expressão durou apenas um segundo e acho que foi a única vez em que ela sentiu medo naquela noite. Recomposta, levantou-se rapidamente e foi abrir a porta.
Antes de ver a nossa ilustre visitante, pude sentir o aroma de seu perfume. Era uma fragrância nova, doce e forte ao mesmo tempo. O cheiro dominou a casa e, confesso, me deixou tonto e apaixonado. Acho que por um momento perdi os sentidos. Fechei os olhos e me esforcei para não cair. Lembro-me apenas de ter viajado, louco e intensamente vivo, por um universo desconhecido, repleto de ninfas e cercado de solidão. Sinceramente não sei quanto tempo fiquei assim. Quando voltei à realidade, ela, nossa inesperada visitante, já estava sentada à mesa. Em frente ao quarto prato.
(continua aqui)
Escrito por Lello Lopes às 13h05
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Fragmentos
Não sabendo que era impossível, foi lá e não conseguiu fazer.
(Publicado originalmente em 25/03/04)
Escrito por Lello Lopes às 13h20
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10h10 (parte 2 de 2)
(para ler a primeira parte, clique aqui)
10h10
Perdido em pensamentos, Seu Motta nem viu o tempo passar. O metrô ainda sacolejava por entre o túnel quando o funcionário público voltou a si. Uma lágrima rasa escorreu-lhe pela face esquerda sem explicação, ao mesmo tempo em que um aperto no coração lhe tirou o ar por um segundo.
Seu Motta olhou no relógio. 10h10. Olhou de novo e conferiu o horário. 10h10. Chacoalhou o pulso esquerdo e olhou mais uma vez. 10h10. “Acabou a merda da bateria”, concluiu, virando o pescoço para a janela em busca da estação. Do lado de fora, a única coisa que conseguiu enxergar foi a parede fria ao lado dos trilhos.
Impaciente, levantou-se do banco e dirigiu-se à porta. O trem estava chegando ao destino, pensou. O sujeito mal-encarado que estava ao seu lado desferiu-lhe um olhar insignificante e ligeiro, e por um momento Seu Motta pensou tê-lo visto sorrir.
A agitação dentro da composição continuava a mesma. As duas velhinhas ainda estavam conversando sobre cinema. Uma confidenciava à outra que era apaixonada por Rodolfo Valentino. O casal de namorados se beijava carinhosamente, enquanto a mãe finalmente convencera o filho a ficar quieto no banco. O gordo careca observava atentamente as tatuagens da menina com brinco na sobrancelha. Alheio a tudo a isso, o jovem forte e bonito permanecia no seu cochilo.
Seu Motta tamborilava a porta, num ritual para que o trem chegasse rápido à estação. O temor de estar atrasado fez com que esquecesse dos pensamentos na família. O metrô seguia o seu ritmo, nem mais rápido e nem mais lento do que o normal. A diferença, no entanto, é que parecia andar em círculos, sem destino.
10h10
O gordo careca deu uma risada alta, cavernosa, e Seu Motta se assustou, dando dois passos para trás. O jovem forte e bonito levantou a cabeça, virou de lado e voltou a cochilar. As velhinhas pararam de falar e olharam de nariz torcido. O menino se animou e colocou-se novamente de pé. O casal de namorados parou de se beijar e se ajeitou no banco. O sujeito mal-encarado manteve-se impassível.
Seu Motta olhou o relógio outra vez, mais por compulsão do que por esperança. O resultado foi o mesmo. 10h10. Mas ele tinha certeza de que a hora não era essa e de que já estava atrasado.
O funcionário público chegou à conclusão de que o trem havia passado da estação e ele não tinha percebido. Por isso estava demorando tanto. Entretanto, passaram 15 minutos (pelo que ele julgou) e nada de aparecer outra estação. Cansado e confuso, Seu Motta voltou ao seu lugar.
O sujeito mal-encarado, visivelmente contrariado em ter que dividir novamente o banco com alguém, recolheu-se ao seu canto, apertando bem entre as pernas a pasta que levava. Já o moço forte e bonito finalmente acordara. Estava bocejando forte do outro lado do vagão. Perto deles, o namorado disse alguma coisa engraçada para a namorada, que retribuía com risadinhas curtas e pulinhos no banco.
- Você tem horas aí? Acho que o meu relógio está quebrado? – perguntou Seu Motta ao sujeito mal-encarado ao seu lado.
- 10h10 – respondeu o sujeito após consultar sem muita vontade o relógio.
- É impressão minha ou este metrô tá demorado demais hoje?
- Não sei, para mim está normal.
Seu Motta levantou-se do banco novamente, indo para a porta. Depois de um tempo, tentou forçá-la, mas não obteve sucesso. Passou para a porta do lado, mas também não conseguiu abri-la. As velhinhas pararam de conversar e o observaram repetir a tentativa pela terceira vez.
Um calor estranho subiu pelo peito, passou pelo pescoço e atingiu as têmporas de Seu Motta. Ele afrouxou o nó da gravata e abriu as mangas da camisa, mas não conseguiu evitar que seu rosto ficasse vermelho. Pela primeira vez na vida, sentiu uma necessidade premente de deixar um lugar.
10h10
Seu Motta olhou pela última vez para o relógio. Os ponteiros, num sorriso irônico, continuavam marcando 10h10. Ele arrancou a velharia do pulso e num lance rápido atacou-a ao chão. Depois, com o pé direito, esmagou o seu antigo companheiro.
O garotinho levou um susto, mas depois sorriu. O gordo também abriu um leve sorriso e levou um cutucão da menina de brinco na sobrancelha. O casal de namorados, mais preocupado com carícias íntimas, não reparou na cena.
Suando muito, Seu Motta sentiu os joelhos fraquejarem e precisou agarrar ao balaústre para não cair. O calor aumentara, e ele abrira os dois primeiros botões da camisa.
Seu Motta sentou-se um pouco, bem próximo ao jovem forte e bonito –que agora ouvia música. A mãe do menininho lia um livro da Zíbia Gaspareto enquanto respondia vagamente às perguntas do filho. Os namorados estava apenas escorados um nos outros, como cisnes após o acasalamento. As velhinhas permaneciam de matracas abertas, falando de filhos e netos. O homem mal-encarado examinava desatentamente os papéis de sua pasta e o gordo e a amiga comentavam sobre um show de rock.
Olhando todos ao redor, Seu Motta teve a estranha sensação de que o tempo estava parado só para ele. Todos pareciam viver uma situação natural, enquanto ele estava a uma, duas, três horas (já não sabia mais) tentando chegar à estação Santa Cruz.
Seu Motta encostou a cabeça na parede, fechou os olhos e pensou. Pensou que ainda estivesse dormindo, que aquilo fosse mais um dos pesadelos que passou a ter nos últimos meses. Pensou que tivesse enlouquecido, como tantas vezes lera nos jornais pela manhã. Pensou que talvez estivesse errado, que o metrô não demorara nada, que ainda eram 10h10. Pensou, pensou, pensou. E concluiu que estava lúcido e certo desde o começo. O metrô simplesmente esquecera de parar, estava dando voltas e voltas sem sentindo.
Decidido a dar um fim em tudo isso, levantou depressa do banco e acionou o alarme de emergência. O soco para quebrar a caixa de vidro provocou um corte fundo nos dedos médio e anular, mas a dor maior foi descobrir que o trem seguiu inabalável em seu caminho inútil.
Desesperado, Seu Motta começou a gritar dentro do vagão, esmurrando portas e janelas. O sangue dos dedos caía em gotas grossas e sujava o chão do metrô. As velhinhas olharam horrorizadas e se deram as mãos. O menino se encolheu no colo da mãe e chorou. O jovem forte e bonito desligou o ipod e assistiu à cena assustado. O gordo careca tentou se levantar, mas foi impedido pela menina de brinco na sobrancelha. O casal de namorados se abraçou fortemente e ficou de sobreaviso. O homem mal-encarado deu um sorriso sincero.
Sentindo um cansaço insuportável, Seu Motta parou no centro do vagão, quase sem ar. O suor havia empapado sua camisa e o sangue manchara sua calça. Um formigamento intenso veio como um furacão pela mão esquerda e numa velocidade impressionante já havia atingido todo o braço.
Inconscientemente, Seu Motta contraiu o pescoço e o jovem bonito teve a impressão de que a veia fosse saltar fora. A mão direita também se contraiu e um esguicho de sangue espirrou perto das velhinhas, que gritaram.
A respiração de Seu Motta ficou cada vez mais fraca, e as luzes do metrô se apagaram de repente. Só então o coração começou a doer, e foi uma dor tão forte que ele nem teve tempo de colocar a mão no peito. Caiu morto no chão.
10h11
O trem chegou à estação.
Escrito por Lello Lopes às 12h56
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10h10 (parte 1 de 2)
10h10.
Seu Motta olhou maquinalmente para o relógio desgastado no pulso esquerdo. Ainda era cedo. Mais um minuto e ele chegaria à estação Santa Cruz do metrô. Depois, caminharia três quarteirões até um posto no INSS localizado na Vila Mariana, onde trabalhava havia 32 anos. Sua tarefa era fácil e repetitiva. Passava oito horas do dia carimbando e protocolando processos. Apesar de burocrático, era um trabalho importante, pois os papéis só poderiam seguir adiante se fossem devidamente carimbados e protocolados. E Seu Motta orgulhava-se de em todos estes anos não ter cometido um único erro ou atrasado um mísero processo que seja.
Todos os dias Seu Motta acordava às 9 horas em ponto. Tomava uma xícara de café bem amargo e comia um pão com manteiga, preparados por sua esposa Maria. Depois, lia a página de Esportes do jornal, então a de Política e a de Economia. Tomava um banho de 15 minutos, colocava uma calça social bege (tinha uma dezena delas), uma meia escura e uma camisa engomada. Beijava a mulher, as duas filhas adolescentes e ia trabalhar.
Morava no Jabaquara e levava uns dez minutos para chegar ao trabalho. Entretanto, saía meia hora antes de casa apenas para não correr o risco de ter um atraso em seu prontuário. Nos 32 anos de trabalho no INSS, podia-se contar nos dedos as vezes em que Seu Motta se atrasou.
10h10.
O metrô, a este horário, estava vazio. Seu Motta gostava de ficar bem no meio da composição, e observava desatentamente os passageiros que o acompanhavam na viagem. Ficava pensando na casa, nas meninas cada vez mais crescidas, começando a namorar. Isabella, a mais velha, estava ficando desbocada e desobediente e merecera a bronca que levara na noite anterior. Anita seguia o exemplo da irmã e também estava dando trabalho para ele e Maria.
Seu Motta esqueceu um pouco os pensamentos nas meninas e se concentrou nos passageiros do metrô. Era uma quinta-feira de inverno, mas estava quente e ninguém parecia se incomodar com o calor das últimas semanas.
Ao seu lado seguia viagem um homem mal-encarado. Tinha os olhos muito negros e uma expressão fria e triste. Descansava sob os seus pés uma destas pastas de executivo. No banco da frente, duas velhinhas bem vestidas tagarelavam alegremente sobre filmes antigos. Mais adiante, um casal de namorados trocavam confidências ao pé do ouvido. No banco seguinte, um jovem forte e bonito cochilava escorado no balaústre, deixando sua mochila no colo.
Um gordo careca, com uma camisa suja do Sepultura, mostrava sua nova tatuagem a uma menina com um brinco na sobrancelha. Do lado deles, uma mulher tentava fazer o seu filho de seis anos terminar a viagem sentado.
10h10.
Seu Motta olhou novamente o relógio e teve a sensação de que já deveria ter chegado na estação Santa Cruz, mas o metrô seguia serpenteando por cima dos trilhos. Do lado de fora, tudo parecia normal. Estava escuro, é claro, mas ele reconheceu o caminho que percorrera nos últimos 32 anos.
Nem sempre Seu Motta quis trabalhar no serviço público. Na juventude, o seu sonho era ser advogado. Mas os pais, imigrantes espanhóis, não tinham como pagar uma boa faculdade. Assim, com muito sacrifício, ele concluiu o segundo grau e passou a procurar um emprego público, que lhe daria estabilidade por toda a vida.
Antes de arrumar vaga no INSS, Seu Motta fez de tudo um pouco. Trabalhou como office-boy, ajudante de pedreiro, empacotador de supermecado e vendedor. Dois meses depois de completar 20 anos soube que o governo contrataria milhares de funcionários. Inscreveu-se no concurso, estudou bastante e conseguiu ser aprovado.
No começo, ficou encantado com a repartição. Era nova e funcional. Seu Motta dedicou-se bastante à sua função e em pouco tempo já era especialista no assunto.
Sonhava em crescer no serviço público. Quem sabe até arrumar um cargo de chefia, com sala própria e meia dúzia de subordinados. Não que o salário que ganhava fosse ruim. Muito pelo contrário. Era o dobro daquilo recebido por seu velho pai. Mas Seu Motta era moleque. E tinha esperança.
O tempo passou, a esperança arrefeceu, o sonho morreu. A promoção tão desejada nunca veio. Seu Motta percebeu que precisava muito mais do que competência para crescer no serviço público. E ele, que nunca foi de bajular os chefes ou puxar o tapete dos colegas, acabou sendo esquecido em seu canto empoeirado.
Por mais de uma vez Seu Motta pensou em abandonar o emprego. Mas o salário de funcionário público e a responsabilidade de cuidar dos pais doentes o fizeram esquecer a idéia.
Se o trabalho não lhe rendeu a alegria desejada, pelo menos lhe trouxe uma bênção, a maior de todas. Uma bênção chamada Maria. No começo da década de 80, Maria procurou o posto do INSS para tratar da aposentadoria da avó. Seu Motta, então com pouco mais de 30 anos, se encantou com o sorriso daquela menina recém-saída da adolescência.
A ajuda do funcionário foi fundamental para que o auxílio da avó de Maria fosse liberado rapidamente. Os dois ficaram amigos e, depois de um breve período, já estavam namorando.
A família dela foi contra, indignada com o fato de Seu Motta ser 12 anos mais velho. Mesmo assim, ninguém conseguiu demover Maria da idéia de casar e os dois acabaram indo para o altar numa bonita cerimônia na igreja da Consolação. Ninguém da repartição foi ao casamento.
Com o pai já morto (ataque do coração enquanto pescava em 1975) e a mãe bastante doente, Seu Motta resolveu continuar morando no bairro do Jabaquara. Conseguiu um mês e meio de férias do trabalho e fez a maior loucura da sua vida: passou a lua-de-mel numa praia da Bahia.
De volta ao batente, a rotina continuava a mesma: carimbar, protocolar, anexar. Em casa, era outra história. Cada detalhe da vida a dois era uma novidade, um encantamento.
Depois de três anos, achou estranho que a mulher ainda não havia engravidado. Levou a esposa ao médico e descobriu que Maria tinha um problema no útero e que dificilmente poderia ficar grávida. O mundo de Seu Motta caiu. Afinal, o que ele mais queria na vida era ter um menino-homem para poder levá-lo aos jogos do Palmeiras no Parque Antarctica.
No final da década, Seu Motta teve uma grande surpresa. A regra de Maria não veio num mês. No outro, a mulher passou a sentir enjôos. Correram às pressas para o médico e o milagre se deu: ela estava grávida.
No final de outubro Maria deu a luz a uma menina de cabelos pretos como a noite, chamada Isabella. Seu Motta ficou um pouco decepcionado com o fato de não ter sido um menino, mas logo se afeiçoou pela filha e a elegeu sua maior paixão.
Quatro anos depois, o milagre se repetiu. Maria-que-não-podia-ter-filhos pariu outra menina. De cabelos cacheados e pele rosada, Anita virou xodó no hospital. Até hoje na maternidade Santa Luzia há quem diga que Anita é a criança mais linda já nascida por lá.
(continua aqui)
Escrito por Lello Lopes às 00h49
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Carnaval
Chove em São Paulo. Uma chuva fria, chata, insistente. Que cai há mais de um mês, ininterruptamente. Olho pela janela e vejo o céu cinza, carregado. Parece o meu coração em outra noite insone.
É Carnaval. Jogado no sofá, zapeio pelos canais. Escola de samba. Descarrego. Baile gay. Estática. Clipe antigo. Estática. Escola de samba. Filme ruim. Estática. Entediado, desligo a TV, jogo o controle fora e fico olhando para o teto. Precisa de uma camada de tinta.
Chocolate. Venderia minha alma por uma barra de chocolate agora. Mas na geladeira só tem leite azedo e tomate murcho. Não me arrisco a encarar nem um, nem outro. Tomo água da torneira para aplacar a fome e a solidão.
Vou até a varanda. Saco o maço de cigarros do bolso. Comprei hoje de manhã e só restam três. Escolho o do meio. Bato duas vezes o cigarro na mão esquerda, como um ritual de sorte. Acendo. A tragada desce amarga pela garganta e se espalha pelo peito. Tusso. E me sinto bem pela primeira vez no dia.
Enquanto espalho as cinzas pelo linóleo, observo a fauna da rua. Está quase deserta pela maldita chuva. Apenas no bar da frente existe vida. Uma prostituta velha exibe o corpo para os carros adolescentes que passam. Ninguém pára. Nem para xingar. Hoje em dia os jovens não servem nem para xingar as vadias da rua.
Volto para o quarto, com os pés congelando. Uma idéia brilhante me acorre. Ligo o computador e travo. Duas linhas do mais puro lixo. Se fosse numa máquina de escrever arrancaria o papel com força, faria uma bolota e jogaria fora. Como é no computador, gravo para usar depois.
Olho para o mural e vejo a foto dela. Dela. A foto que tiramos no Carnaval do ano passado em Salvador. A noite estava quente, com a maior Lua que já vi na minha vida. Ela sorri na foto, sorri pra mim. Hoje esse sorriso é como um tiro certeiro. Ele me mata.
Levanto para rasgar a foto, mas como nas outras inúmeras vezes me detenho com elas nas mãos. Sorriso. Lindo sorriso, meu Deus. Acabo fazendo um carinho na fotografia. Dou dois beijos na boca dela e a coloco de volta no mural. Sorrindo para mim. Filha da puta.
A cabeça dói. Mesmo assim, procuro um livro para ler. Dom Casmurro, A Guerra dos Mundos, Os Cem Melhores Contos Eróticos do Século. Nada me apetece (só uma barra de chocolate, que eu não tenho).
Sem ela o apartamento parece ser tão grande. Ainda vejo as coisas que não existe mais. Os perfumes na cabeceira da cama, os bichos de pelúcia espalhados pelo sofá, o violão encostado na parede do quarto. Da nossa foto juntos só restou o porta-retrato vazio em cima da mesa. E o cachorro que insistia em atrapalhar o sexo não late mais. Sinto falta do cachorro. Sinto falta dela.
Volto para a varanda. Piso sobre as cinzas e acendo outro cigarro. A puta ainda está lá. Eu ainda estou aqui. O mundo é essa mesma merda, ninguém dorme direito, ninguém fode direito. Penso em chamá-la, mas perco a coragem. O sexo me faz lembrar da menina da foto. Milhões de coisas ainda me fazem lembrar dela: a nossa música que vive a tocar, os filmes que vimos juntos, os lugares que visitamos...
Pego o telefone para ligar para ela. Disco os dois primeiros números e desligo. Ela não está em casa, é claro. Foi viajar com o namorado para a praia. Vaca filha da puta. Corno desgraçado. Se pudesse arrebentaria aquela cara feia cheia de dente. Mas isso é mentira, quando o vi cumprimentei-o, como velho amigo. Babaca.
Tento de novo o armário e a geladeira para ver se acho chocolate. Nada. É por essas e outras que digo que Deus não existe. Afinal, se ele é o Todo-Poderoso, não custava nada fazer aparecer uma mísera caixinha de Bis.
A chuva continua, agora mais forte. É Carnaval em São Paulo. E eu embaixo das cobertas, com frio, com fome. Sozinho. Insone.
E nem ao menos uma garrafa de vinho barato na geladeira.
(Publicado originalmente em 26/02/04, ou seja, umas duas ou três vidas atrás)
Escrito por Lello Lopes às 21h42
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Escrito por Lello Lopes às 12h21
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