All in
A mão suada alisou as cartas, sem coragem de virá-las. O clima no apartamento apertado do centro estava abafado. E ele mal conseguia respirar, engasgado pelo cheiro do charuto barato. Já havia perdido muito dinheiro na noite, coisa que nem a garrafa vazia de uísque ao seu lado o fazia esquecer.
Agora, tinha poucas fichas e pouca esperança. Nunca fora um grande jogador. Em uma ou duas noites de sorte, conseguiu sair vencedor. Na maioria das vezes, terminava a jornada sem grandes perdas. E ia comemorar com prostitutas baratas. Mas hoje era diferente. As cartas simplesmente não vinham. Um par de valetes foi a sua melhor mão na noite. Pouco, muito pouco para quem apostou tão alto.
Enquanto pensava nas chances perdidas, acariciava as cartas à sua frente. Um toque sensual, tenro, carinhoso, primeiro com o indicador, depois com o dedo médio, como se quisesse chamar a sorte de canto para uma conversa. E repetia o ritual, tantas vezes quanto fosse necessário, até ter sua vez de jogar.
E a vez chegou. Como um ladrão, olhou para os lados para ver se não estava sendo observado. E puxou a primeira carta, um ás de espadas. Um arrepio gelado subiu-lhe pelas costas, e se transformou em tremor quando viu que a segunda carta também era um ás, de copas.
Fez um esforço sobre-humano para se manter impassível. Mas não conseguiu controlar a vontade de arrumar os óculos sobre o nariz, como sempre fazia quando estava excitado.
Com o melhor jogo nas mãos, não quis assustar os adversários. Pegou dez fichas azuis e colocou no centro da mesa, apostando mil dos dez mil reais que ainda sobrara. Já tinha perdido oitenta mil, e via agora a grande possibilidade de recuperar boa parte do dinheiro.
Outras cinco pessoas estavam na mesa. O gordo ao seu lado, desconfiado, logo jogou as cartas foras, mas a moça loira com sotaque gaúcho, o estrangeiro com chapéu panamá, o vereador de Pindamonhangaba e o senhor de barba grisalha cobriram a oferta e seguiram no jogo.
Se a situação já estava boa, melhorou ainda mais no flop: um rei de espadas, um ás de ouros e um quatro de paus. Assim, apostou mais dois mil reais. A loira, com um grunhido de desdém, mexeu o seu drink com o dedo e abandonou o jogo. O estrangeiro aumentou a aposta em mais dois mil, fazendo com que o vereador também jogasse as cartas fora. O senhor de barba grisalha pagou.
No turn, um sete de paus. E nova rodada de apostas, com o volume de dinheiro na mesa aumentando. Quando o river foi revelado, um quatro de copas, não teve dúvidas: “all in”. Mais do que o dinheiro, era a dignidade que estava em jogo. Tinha uma trinca de ases, e não admitia perder a mão. Estava convicto que de a rodada marcaria o início da reação, para voltar para casa com orgulho de dever cumprido.
Líder em fichas, o estrangeiro com chapéu panamá não teve problemas em pagar os dez mil reais. O senhor de barba grisalha, depois de olhar bem o seu jogo, também resolveu pagar.
Com ar de superioridade, jogou os dois ases na mesa. “Filho da puta”, falou o estrangeiro, em bom português, virando os seus dois reis. Já ia pegar as fichas quando viu o senhor de barba grisalha, quase constrangido, mostrar dois quatros. Era a única combinação que o vencia.
A partir daí, as coisas ficaram confusas. O barulho das fichas sendo recolhidas tornou-se ensurdecedor. Atônito, encaixou de novo os óculos na cara e se despediu um a um dos companheiros de mesa. Antes de sair, ainda tropeçou numa garrafa vazia, mas não caiu.
A noite o recebeu desafiadora. Um vento gelado o fez encolher. E no abraço do agasalho, começou a pensar em como iria contar para a mulher que perdera todo o dinheiro guardado para a faculdade do filho que iria nascer na semana seguinte.
(Publicado originalmente no finado Major Tom no dia 19/04/07. Um calhauzinho, de vez em quando, não faz mal a ninguém. Principalmente nos dias que a saúde não anda muito boa e as ideias originais estão meio fracas)